04


Quando abro os olhos, percebo que estou no chão. Sento-me, com dificuldade, e ergo a mão até minha bochecha esquerda intuitivamente, notando que o tapete listrado que dava ao quarto um ar de leveza tinha deixado sua marca ali; não tinha um espelho em qualquer lugar visível a meus sonolentos olhos, mas eu podia apostar que o local estava vermelho.
Minhas costas latejavam por culpa da péssima posição na qual havia adormecido. O remédio para dor de cabeça que eu tinha tomado surtiu um efeito muito rápido e assim que a dor se esvaiu acabei pegando no sono. Nem parecia que há apenas três dias eu era uma pessoa completamente diferente e nunca seria capaz de imaginar que minha vida pudesse mudar tão rápido. Os acontecimentos de meu último dia como Hannah ainda causavam-me cansaço, física e mentalmente. Pelo menos desta vez eu não tive pesadelos... Não que eu me recorde.
Depois de muito esforço, finalmente me levanto e, sem ter ideia de que horas são, saio em busca do meu celular. Encontro-o dentro de um casaco, que por sua vez encontra-se dentro do armário. São cinco e meia da manhã; não é a toa que ainda está escuro.
Sonolenta, sigo até o banheiro com uma blusa e uma calça em mãos, trocando-me e fazendo a higiene matinal na mais perfeita calma. Quando checo novamente, vejo que só se passaram quinze minutos. Decido então dar uma volta pelo lugar, já que não tenho mais nada interessante para fazer a não ser pensar naqueles belos olhos e, bem, isso não colabora com minha sanidade mental, não até que eu tenha fatos concretos sobre esse cara. O que eu espero que aconteça logo. Será que ele estuda aqui? Ou estava somente, sei lá, jogando tênis com um amigo? Balanço a cabeça para afastar tais indagações de minha mente, concentrando-me apenas no passeio.
Após fechar a porta do quarto com cuidado e adentrar a escuridão do corredor, paro e escuto.
Nenhum barulho.
Pelo visto sou a única com o sono irregular. Melhor assim.
A sala de jantar soa um pouco assustadora, considerando que a única luz vem de uma fraca vela posicionada num adorável suporte num tom ouro, que está em uma das mesas no canto da sala. Novamente paro para escutar, e o resultado é igual; nenhum único som. Não que eu esperasse que fosse haver algum, mas aprendi a sempre me precaver e hábitos diários são difíceis de esquecer.
Paro ao lado da vela, notando pela primeira vez que há um livro ali. Em uma capa vermelha escura, o nome O Morro dos Ventos Uivantes pode ser lido fracamente num sutil dourado. Dou um fraco riso, lembrando-me que não faz muito tempo, eu estava com esse livro em mãos; a diferença entre eles é que este que está em minha frente agora tem, no mínimo, mais do que a minha idade; o que já é uma quantidade significativa de tempo.
Obviamente, alguém o esqueceu ali. Decido pegar o livro e entregar aos achados e perdidos da universidade; eles saberão como devolver ao dono. Sustento o livro em meu braço direito, e vou em direção à porta, já cansada de passeios noturnos (ou seriam matinais?).
Porém, quando estou saindo de lá, um barulho vindo de trás de mim desperta minha atenção e viro-me instintivamente, em posição defensiva. Quando não vejo nada, ao invés de relaxar, fico ainda mais atenta, controlando até minha respiração. Espero e, depois de alguns segundos, o barulho se repete. É como se alguém estivesse... Teclando. Cruelmente, sim, como se precisasse enterrar o dedo na tecla para que funcionasse, mas ainda sim teclando. Alguém está mexendo em um computador e está próximo, muito próximo. Na ponta dos pés, vou até a vela e com um forte, porém silencioso sopro, a apago. Se tem alguém mexendo no computador, definitivamente alguma luz está envolvida.
O local torna-se um completo breu e ando devagar pelo meio das mesas, indo na direção oposta à que eu iria tomar segundos antes. Bato a mão em algo duro e redondo, que percebo ser uma maçaneta. Só pode vir daqui o barulho. Quando adentro a porta, vejo que há uma mesa de madeira encostada na parede, porém nada mais. Em cima dela, outra vela. E o barulho das teclas soa cada vez mais alto, apesar de ainda se comparar ao barulho de um clips caindo no chão. Tendo noção de meus instintos aguçados, sinto-me no direito de, novamente, apagar a vela. Desta vez solto o livro, deixando-o em cima da tal mesa. Uma fraca luz vem de... Não, não é possível.
Há uma fraca luz em um canto da parede, exatamente onde fica a mesa. A mesa tem um espaço perfeito para o encaixe de uma cadeira, um quadrado. No lado inferior do quadrado, há um fiapo de luz muito fino, porém existente; e ao me aproximar um pouco, percebo que é exatamente dali que vem o barulho. Mas como? Aquilo é uma parede, não?
Entro debaixo da mesa e começo a tateá-la em busca de algo. Quando meu dedo identifica um fraco buraco no topo da parede, meu coração dispara. Pressiono o “botão”, e percebo que o tal quadrado é uma portinhola, que se abre silenciosamente. Permaneço imóvel por alguns segundos até que minha respiração se estabilize e meu coração pare de bater incontrolavelmente. Quando o silêncio mais uma vez é total, entro engatinhando no que parece ser uma pequena sala. Vazia. Logo identifico que a luz vem de uma porta à minha esquerda, e sigo até lá em pé. A porta está entreaberta e enxergo uma silhueta sentada desajeitadamente em uma cadeira, em frente a um computador. Tão logo ponho meus olhos na tal pessoa, reconheço-a, talvez a única familiar para mim nesse lugar.
Cooper.
- É educado bater de vez em quando, . – ouço sua voz e dou um pulo para trás, no susto. Tento ignorar o fato de ele ter me chamado pelo apelido, quando nem ao menos acostumei com meu nome (novo e antigo ao mesmo tempo). Deixo o medo de lado, reconhecendo que ele já me viu ali de qualquer forma, e entro na tal sala. – Estava mesmo me perguntando se deveria mostrar a você.
- O que? – pergunto, ouvindo-o girar a cadeira, mas estou ocupada demais observando a sala para mirar em sua direção. É uma sala relativamente pequena e, fora a mesa onde estava o computador no qual Cooper mexia, o único móvel era uma estante enorme, repleta de caixas, que ocupava toda a extensão da parede.
- Essa sala. – responde num tom casual, e me aproximo da tal estante, notando que nelas tem uma etiqueta com... – São sobrenomes. – sacia minha dúvida mental e eu apenas balanço a cabeça positivamente, virando na direção dele pela primeira vez desde que entrei ali. Cooper é, realmente, muito bonito. Ele usava um jeans claro e uma blusa polo listrada, nos tons esmeralda e branco. Ele percebe meu olhar e eu viro o rosto, sentindo minhas bochechas esquentarem.
- E então? – pergunto, retomando a conversa de tempos atrás e Cooper arqueia a sobrancelha, confuso. – Você estava se perguntando se deveria mostrar a sala para mim e...
- Você já está aqui, não é mesmo? – ele dá de ombros, rindo e eu encolho os ombros, envergonhada por ter sido pega bisbilhotando. – Brincadeira. – diz, piscando para mim de maneira descontraída. – Eu precisava mesmo falar com você.
Afasto-me de onde ele está, me aproximando da estante e percebo que, mais de perto, ela parece ainda mais extensa. Penso que esta sala deveria ser enorme antes de posta a mobília. Nenhum dos sobrenomes colados às caixas me chama a atenção, a não ser...
- ? – meu recém-adquirido sobrenome encontra-se numa pequena caixa em um canto da estante. E, ao contrário dos outros nomes que tinham ali, escritos num forte tom preto, este tinha sido grafado num tom igualmente forte, porém vermelho; que foi o que atraiu minha atenção.
Sem me importar com o olhar de Cooper sobre mim, tiro a caixa dali, colocando-a no chão e removendo sua tampa.
Apesar de a caixa ser menor do que as outras, ela ainda parece grande, considerando que ali dentro tem uma única pasta, com meu nome na frente. Cooper a tira de minhas mãos antes que eu tenha a oportunidade de ver seu conteúdo.
- Acho melhor você não mexer nisso. – diz, com um sorriso, mas seu tom é sério e eu permaneço em silêncio, sentando no chão. Guarda a caixa e senta em minha frente. – Quanto ao seu emprego... – tira do bolso um papel, que me entrega. – É aqui que você vai trabalhar. Chegue lá e dê seu nome que eles lhe conduzirão a partir daí. Ok? – balanço a cabeça afirmativamente, um pouco surpresa pela mudança de comportamento que Cooper sofreu. Quando começou a falar sobre o que eu teria de fazer, assumiu uma postura profissional que eu não tinha presenciado ainda. Incrivelmente, devido a isso, não me senti estranha por receber ordens de alguém com quase a mesma idade que eu. Meus olhos se desviam para a estante, e acabo verbalizando a pergunta que está em meus lábios desde que entrei aqui.
- O que tem nessas caixas?
- Informações. Sobre todos que moram ou já moraram na cidade. – arqueio as sobrancelhas, impressionada. – Mas é confidencial. Ou seja, a senhorita não tem permissão para mexer aqui. – diz quando percebe meu olhar curioso e eu não seguro uma risada. Apesar de seu tom ser sério, não deixa de ser engraçado o modo como fala.
- Ok, papai. – digo, num tom brincalhão e percebo Cooper sorrir. Ele me entrega outro papel e percebo que é meu horário de aulas. Minha primeira é Direito Penal, e começará em uma hora. Suspiro, me levantando e indo em direção à porta.
- Não se esqueça de ir até o consultório do Alaric quando tudo sobre seu emprego estiver decidido. Ele estará lhe esperando. – diz, mas não me viro, apenas solto um resmungo baixo. A ideia de ter alguém substituindo Scott não me é nada agradável, mas afasto tais pensamentos quando me dirijo até o quarto novamente; parando para pegar o livro no meio do caminho. Decido coloca-lo dentro da bolsa, para entregar aos achados e perdidos depois.
É, mais uma mudança. Finalmente começo a perceber a magnitude disto. Faz muito tempo desde que alguém me chamou de pela última vez; não é, literalmente, muito tempo, mas parece. Qual a coloração verdadeira de meus olhos? Não importa mais, pois agora são verdes. E meus cabelos ruivos... Bem. A quem perguntasse, eu diria ser de nascença. Meu nome? .
Suspiro mais uma vez, contendo as lágrimas que inundaram meus olhos e encaro meu reflexo. Esta sou eu. Gostando ou não, esta sou eu. Esperava me acostumar logo com o novo rosto que me encarava.
Vivo num mundo de mentiras, é verdade. A única coisa que me conforta é que pelo menos Cooper sabe minha verdadeira história, para ele eu não preciso mentir; não em particular. Em público, já é outra história. “Sempre é”, uma voz dentro de mim sussurra e eu sorrio ironicamente. Minha mente vagueia novamente por meu passado, me lembrando de minha infância. Não era tão anormal fingir ser outra pessoa, já era acostumada a isso desde pequena. Balanço a cabeça para afastar tais pensamentos e respiro fundo, passando as mãos pelo rosto e retocando as olheiras com maquiagem. Não é hora de reviver o passado. É hora de ir para a aula, e começar uma nova vida. Grudo um sorriso no rosto, passando as mãos pelo cabelo uma última vez, pegando a bolsa e andando até o local onde (achava eu) seria minha aula. O sol batendo em meu rosto me dá uma nova energia, tudo o que eu precisava no momento. A fome, incrivelmente, não se manifesta em meu corpo e também não me preocupo em ingerir nada.
Ando encarando meu horário de aulas e não percebo quando, sem querer, acabo esbarrando em alguém.
- Opa, me desculpe. – digo, apressada e a garota na qual esbarrei apenas ri.
- Não foi nada. – ela passa as mãos pelo vestido, arrumando-o e junta o caderno que tinha caído no chão, dando mais uma olhada em si mesma e sorrindo novamente. – Viu? Perfeitamente ilesa. – sorrio, aliviada e paro para observá-la. A garota tem mais ou menos minha altura, e usa um vestido florido adorável. Nos pés, um Oxford amarelo se destaca, e chama a atenção juntamente a sua bolsa verde neon. Ela tem os olhos cor de mel e um cabelo loiro bastante longo e ondulado; seu sorriso é bastante simpático. Ela ri novamente, me despertando. – Nossa, nem me apresentei! Sou Mary Jane e vim de Ohio. – estende a mão, que aperto cordialmente.
- Sou , e vim do Texas. – sorrio, usando o apelido que Cooper tinha inventado e a informação contida em minha nova certidão de nascimento.
- Texas! Meus avós são do Texas. Que incrível! Você gosta de lá? – pergunta, super animada e eu me esforço para manter o sorriso em meu rosto.
- Sim, gosto muito! – digo, o que chega a ser cômico. Nunca estive no Texas. Mais uma mentira para a minha enorme coleção.
- E você cursa o que?
- Direito. – respondo, mais relaxada por ela mudar de assunto. A garota bate palmas.
- Eu também! Vem, te mostro onde é a sala! – pega minha mão, empolgada e me puxa pelos corredores, continuando a falar. – Nunca te vi por aqui. As aulas começaram na semana passada. Que pena que você não pode estar aqui desde o comecinho. É tudo tão lindo, não é verdade? Imagino quão encantada você deve estar, eu ainda estou! Já viu as quadras de tênis? São tão verdes e... – ela continua tagarelando, mas minha mente voa para longe, nas lembranças do dia anterior. A quadra de tênis. Os olhos do tal homem preenchem meus pensamentos novamente e eu me esforço para manter a atenção em minha simpática e nova amiga. A animação dela chega a me divertir. Estava sim, encantada com o lugar, mas era claro que meu encantamento não era nada perto do de Mary Jane. Ela obviamente sonhou com isto por muito tempo e age, literalmente, como uma turista. Sinto-me melhor na presença dela. Sua energia é contagiante.
Para de falar quando chegamos a uma sala e indica um lugar ao seu lado, onde me sento. Logo o professor entra, impedindo a garota de falar mais alguma coisa. A aula começa e eu, incrivelmente, gosto.
Quinze minutos depois, uma leve batida na porta me desperta; o que me faz perceber quão imersa na explicação eu estava. O professor não dá importância alguma à interrupção, mas minha curiosidade impede que eu desvie os olhos dali. Quando a mesma se abre, a primeira coisa que noto são os olhos... . É ele, sem dúvidas. A surpresa me faz desviar os olhos para o livro e mantenho o olhar ali, irredutível. Não acredito que ele cursa o mesmo que eu. Só pode ser brincadeira. Meu coração bate freneticamente e chego a temer que alguém possa ouvir suas palpitações cada vez mais rápidas. Mary Jane é a mais próxima a mim e não demonstra perceber a mudança em meu comportamento, então relaxo parcialmente. Ele está na mesma sala que eu. Na. Mesma. Sala. Não pareceu notar minha presença, mas também não olhei para ele novamente para conferir. Provavelmente sentou na última cadeira; eu, bem na frente, não o tenho em minha linha de visão.
Depois que o novo estudante adentrou a sala, já sei que minha concentração foi pelos ares. Meus pensamentos continuam completamente focados nele, apesar de meus esforços para prestar atenção em qualquer outra coisa.
As próximas aulas passam num borrão, e quando dou por mim já é hora do almoço. Mary Jane pergunta se já sei onde vou almoçar, e aceito seu convite, seguindo em sua companhia a uma adorável cafeteria. Quando pergunta sobre a aula, aproveito a oportunidade para indagar sobre aquele que chegou atrasado. Tento manter, porém, um tom indiferente. Ela ri, revirando os olhos.
- Aquele ali? . Já sei o que pensou dele... Lindo, sedutor. É. – dá de ombros e eu me esforço para dar um sorriso, o que a faz continuar. – Mas cuidado. Tem algo muito misterioso sobre ele. – consegue despertar minha curiosidade.
- Misterioso? – pergunto e ela assente, aproximando-se de mim.
- Sim. Ninguém sabe o que é – sussurra, olhando para os lados numa expressão que me divertiria se eu não estivesse tão ansiosa para ouvir o que ela diria a seguir. -, mas algum mistério emana dele. O jeito de ele falar, de se esquivar de perguntas sobre a vida pessoal. E mais. Fiquei sabendo que tem vezes que ele simplesmente some, por semanas. E quando volta age como se nunca tivesse sumido. Sei que ele é totalmente irresistível e tudo mais, mas se eu pudesse te dar um conselho diria para tomar cuidado. Muito cuidado. – retorna a sua cadeira, e retoma a conversa animada sobre professores e aulas, como se o momento anterior nunca tivesse existido.
Esforço-me para prestar atenção no que ela diz, mas não consigo. O nome parece um letreiro brilhante em minha mente. Tem algo estranhamente perigoso no que se refere a esse garoto. E, ao invés de me apavorar, isso me excita. De repente, quero descobrir tudo sobre ele. Como uma pesquisa, só que infinitamente mais atraente.
É hora de fazer uma visitinha à biblioteca particular de Cooper.

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