Nota fixa: Antes de escrever sobre a ida da personagem à cidade de Princeton, fiz pesquisas a respeito. Portanto, alguns detalhes e informações contidos aqui sobre a mesma são verídicos. Porém, como a autora que vos fala nunca esteve na Universidade de Princeton, não sabe como funciona a administração e a distribuição e ocorrência de aulas no local. Sendo assim, peço que considerem esse tipo de relato como sendo fictício, ou seja, criado por mim.
Prefácio
Nunca pensei que apareceria alguém assim na minha vida. Era de tal forma estúpido pensar que eu estava arriscando a minha vida para salvar outra pessoa. Vida que eu tomara tanto cuidado em preservar, existência que eu procurara manter em segredo. Estava jogando tudo para o alto, porque eu estava dominada por ele. Dominada. Tamanha veracidade nesta simples palavra me assustou. Eu me sentia um bichinho indefeso no meio de todo aquele alvoroço, mas por alguma razão eu simplesmente ignorava esse medo. Medo. Por segundos minha face assumiu uma expressão cômica. Há tempos eu havia aprendido a ignorar essa apreensão. Demonstrar medo atrapalhava tudo. Não tê-lo me fazia parecer um deles. Por essas e outras razões, eu resolvera manter meu medo para mim mesma. Nunca o havia demonstrado para ninguém.
Quer dizer, a não ser a ele.
- Alô, pai? – falo novamente para o minúsculo telefone preto que seguro próximo ao ouvido. Já estava tentando falar com o meu pai há minutos, mas a ligação permanecia muito ruim. Ouço um barulho estranho e o telefone fica mudo. Sento no sofá amarelo que enfeita minha simples sala e espero, encarando um quadro pendurado na parede – uma das minhas aventuras nos tempos de colégio. Não era um quadro feio, mas ainda sim não era possível descrever o que tinha desenhado nele; era colorido e cheio de riscos, mas quando tentei desenhar uma menina, ela pareceu mais um borrão. Pendurei em meu novo apartamento como um lembrete para não levar a vida tão a sério. – e cruzo os braços, equilibrando o celular em minha perna esquerda. Alguns segundos depois ele torna a tocar, atendo já sem paciência.
- Sim?
- ? – ouço a voz de meu pai claramente. Finalmente!
- Oi pai, aleluia! Onde você estava?
- Eu... Acho que não vai dar para nos encontrarmos hoje, filha. – fala baixinho e eu preciso aproximar o máximo possível o celular do meu ouvido para conseguir ouvi-lo.
- De novo, pai? Faz um mês que não nos vemos, nem parece que moramos na mesma cidade!
- Desculpe, é que... Só um minuto, querida. – fala para mim e parece tampar o telefone com a mão, já que não consigo mais ouvir nada. Aguardo. – Acho que vai dar sim... Consegui um tempinho. Você pode ir ao café que tem ao lado do seu apartamento, aí eu passo lá pra te pegar?
- Pai... – rio, balançando a cabeça negativamente e ciente de que ele não podia me ver. – Eu já tenho dezenove anos e possuo meu próprio carro.
- Eu sei, mas acho melhor assim. Pode ser? Passo aí em meia hora.
- Mas... – começo, mas percebo que o telefone fica mudo. Bufo, irritada. Meu pai se recusa a perceber que eu cresci, vê se pode!
Desde que minha mãe morreu – faz um ano que isso aconteceu – meu pai se jogou de cabeça no trabalho. Na época eu já morava sozinha, em uma casa ao lado da deles, me mudei para o apartamento dois meses atrás (era mais perto da faculdade, que eu havia acabado de iniciar). Meu pai começou a ficar distante e sempre que estávamos juntos se mostrava cheio de preocupações, meio paranoico até. No começo eu achava que era um “bloqueio” para ele não pensar tanto na mamãe e não sentir tanto a sua perda, mas já faz um ano que é assim e nada mudou. Na verdade, ficou pior. Está cada vez mais difícil vê-lo e quase impossível conseguir uma ligação que dure mais de cinco minutos com ele. Estou seriamente preocupada e achando que está na hora de tomar uma providência. Levá-lo a um terapeuta, talvez.
Pensando nisso, termino de me arrumar rapidamente e fico quase quinze minutos esperando na frente do tal café. Finalmente avisto o carro preto do meu pai e sigo até lá, sentando no banco do carona. Encaro meu pai, sorrindo, e ele dá um sorriso torto, depositando um beijo em minha bochecha. Fito, impressionada, sua face. Ele está muito abatido, com a barba por fazer, olheiras extremamente escuras embaixo de seus olhos e mais rugas que o usual. Ele parece ter dez anos a mais do que sua verdadeira idade. O cabelo desgrenhado pedia um pente com urgência e sua roupa gritava claramente que não tinha sido passada. Está completamente amassada.
- Está tudo bem? – pergunto suavemente, observando sua expressão; seus olhos permanecem fixos na estrada. Ele assente positivamente de modo quase imperceptível e murmura algo que não consigo compreender. De repente o carro é desligado e paro para observar onde estamos. É um pátio enorme, que mais parece uma quadra de basquete ao ar livre. Dois galpões podiam ser vistos mais adiante e não tinha nem sinal de civilização. Meu pai tira o cinto e olha para mim. O encaro em silêncio.
- Eu... Vou precisar ir embora.
- Embora? Embora pra onde? – pergunto, desesperada. A ideia de perdê-lo soava absurda para mim.
- Pra longe. É só por um tempo, querida. Eu volto. – tenta sorrir, mas tudo que consigo ver é uma careta. Apesar da tentativa de um sorriso, seus olhos demonstram claramente uma tristeza profunda. Eu o conhecia bem o suficiente para saber que tinha algo muito, muito errado.
- Por quê? – minha voz é um sussurro, e meus olhos já estão tomados pelas lágrimas. Meu pai levanta a mão e faz carinho em minha bochecha.
- Quanto menos você souber, mais segura você está. – fala e eu não compreendo nada. – Desculpe, querida. Eu amo você.
- Também amo você pai, mas... – começo, mas o telefone dele começa a tocar. Fico quieta para ouvir a conversa.
- Alô? O quê? Como? – olha em volta, com os olhos arregalados. – Tudo bem. – desliga, saindo do carro. – Vem comigo. – fala para mim, indo até o porta-malas do carro. Sigo até lá e ele parece preocupado. Abre-o e aponta para dentro. – Entre aí. – com medo, faço o que ele disse sem mais perguntas, deitando encolhida nos fundos do nada confortável porta malas. Meus dedos já tremem, nunca tinha visto meu pai tão sério. – Não importa o que aconteça, não saia daí de dentro e não faça nenhum barulho. Entendeu? – pergunta e, incapaz de falar, eu apenas concordo com a cabeça. Ele fecha a porta e eu fico completamente no escuro. O ar fica mais abafado, mas ainda sim eu consigo respirar tranquilamente, pois o porta malas é daqueles que tem um tampão removível em cima, que estava fechado no momento, mas ainda tem uma fresta que permite que o ar passe. Ouço a porta sendo aberta, mas não consigo identificar se é a porta da frente ou a de trás, só o que eu sei é que é do lado do motorista.
- O que você quer, Frederich? – ouço meu pai dizer, a voz dele está séria. Ele parece estar ao lado do carro e, por culpa da porta aberta, eu consigo ouvir tudo claramente.
- Você não falou onde a entrega seria feita. O chefe quer detalhes.
- Eu falei para o seu capan... Colega. Vai chegar ao porto às catorze horas. Ele tem que estar lá para fazer o pagamento imediatamente e em dinheiro vivo, senão as drogas não serão entregues a ele e o carregamento poderá ser comprado por outro traficante. Existem muitos outros de olho nessa mercadoria, você sabe disso. – meu pai fala, sério, e eu choro silenciosamente. Drogas? Então era com isso que meu pai estava envolvido? Drogas? Durante todo esse tempo, que eu vi ele cada vez mais distante e achava que era por culpa do trabalho no escritório, esse era o tipo de coisa com a qual ele estava envolvido? Eu não posso acreditar.
- Muito bem. E você falou que tinha algo a dizer, fale agora.
- Eu prefiro falar diretamente ao chefe.
- Agora. – o outro fala, aumentando o tom de voz.
- Eu quero sair disso. Não vou mais trabalhar para vocês.
- Ah, então você se demite? – o homem pergunta, rindo alto de maneira diabólica. Estremeço. – Você sabe que isso não é possível. Uma vez dentro, impossível sair.
- Eu vou manter tudo em sigilo absoluto.
- Deixe eu lhe ensinar uma coisinha: em um mundo de interesses, a única pessoa na qual podemos confiar é em nós mesmos. Você deveria saber. – ouço um clique metálico.
- NÃO! – escuto meu pai gritar e depois ouço dois barulhos seguidos. Eu nunca ouvira antes, mas poderia jurar que eram tiros. Meu rosto já está completamente molhado. Quem matara quem? Meu pai não tinha uma arma, tinha? Teria ele morrido? Não.
Fico alguns segundos apenas chorando compulsivamente, apesar de ainda manter o silêncio relativamente, pois não quero chamar a atenção de quem estava do lado de fora. Alguém faz algo ao lado do carro, fazendo barulho, mas não consigo identificar o que é. Até que cessa. Quando os meus soluços diminuem, me mexo dentro do porta-malas e forço a porta para sair. O tampão em cima de mim também está emperrado. Tateio o chão cegamente, à procura de algo que me tire dali, e me lembro de uma vez, há alguns anos, quando meu pai me disse que levava sempre consigo uma caixa de ferramentas, para emergências. Agarro-me a essa memória, e procuro por uma caixa ali. É um alivio quando bato em algo grande e quadrado, quase escondido atrás do banco. Abro a caixa em silêncio, e tiro dali algo que parece um alicate. Tenho que segurá-lo com as duas mãos, já que o choque tinha tirado toda a minha força. Forço e consigo quebrar a tranca que prende o porta-malas, já que ele não estava completamente fechado, estava apenas encostado. Levo as mãos ao rosto quando a claridade invade meus olhos e preciso respirar fundo para jogar o corpo para fora dali. Coloco as pernas para fora e pulo, tocando o chão suavemente. Varro meus olhos pelo lugar e está tudo vazio. Sigo até o lado do carro e vejo o corpo do meu pai atirado no chão, uma poça de sangue em sua volta. Reprimo um grito, levando as mãos à boca, pois vejo um homem andando mais adiante. Ele está relativamente longe e de costas para mim. É alto, usa uma calça jeans rasgada num tom grafite. Veste uma blusa preta, com a manga arregaçada até os cotovelos, deixando à mostra uma cobra verde tatuada na parte de trás de seu antebraço esquerdo. Sua cabeça é raspada e ele possui um símbolo tatuado na parte de trás do pescoço, com alguma frase escrita que eu não consigo ler por causa da distância e uma cobra embaixo das letras.
Desvio o olhar, evitando olhar o corpo do meu pai para não fazer barulho e alertar ao estranho que estava indo embora que eu existia. Vou até a parte de trás do carro novamente e tiro o celular do meu bolso, chamando a polícia e voltando a chorar.
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