Acordo num pulo, despertada pelo barulho do interfone. Tateio a cama à procura do meu celular, quando o acho confiro as horas: cinco da manhã. Não é a toa que ainda está escuro. O interfone continua tocando insistentemente, finalmente me rendo ao barulho irritante e decido atender o Sr. Roger, porteiro do prédio. Ele trabalhava lá fazia alguns meses, tinha acabado de vir do México com a esposa grávida, em busca de melhores condições de trabalho. Nunca perguntei o que ele fazia quando morava lá, mas acredito que era algo não muito agradável, já que ele parece adorar ser porteiro, apesar de ser horrivelmente quente lá dentro da portaria. Eu nunca entrei lá, mas sempre vejo a testa de Roger brilhando por culpa do suor.
Levanto e sigo no escuro até a cozinha, passando as mãos pela parede até encontrar o aparelho, pendurado ao lado da geladeira. Atendo, irritada por ter sido acordada tão cedo. Minha aula na faculdade é apenas às nove horas!
- Sim, Roger?
- Señorita Hannah, - começa, com a voz rouca e o sotaque carregado. Pigarreia antes de voltar a falar e eu deduzo que ele estava dormindo. - tem um moço aqui que deseja falar-lhe. Ele diz ser seu amigo e se chama Greg. – fala e eu estremeço. Não conheço ninguém chamado Greg e nenhum dos meus conhecidos, em sã consciência, viria ao meu apartamento em uma hora tão inconveniente. Um alerta se acende em minha cabeça, que logo se ocupa de mil pensamentos.
- Espere um minutinho, sim? – falo para Roger e largo o interfone com cuidado na bancada da cozinha, vou correndo até a televisão e ligo-a no canal de câmeras do prédio. Quando a imagem aparece, vejo um homem loiro, com os cabelos batendo na altura do ombro. Ele usa uma blusa branca e calças jeans. De repente ele levanta a mão para coçar o olho e eu vejo em seu antebraço uma cobra tatuada.
Eles me acharam.
Corro de volta à cozinha e pego o interfone, com as mãos tremendo.
- Roger?
- Sim, señorita Hannah?
- Diga a Greg que eu já estou descendo e pergunte a ele se o caderno que ele quer emprestado é o laranja ou o branco. – falo, com a minha voz incrivelmente soando calma. Claro que não existe nenhum caderno, eu só queria que o homem pensasse que eu realmente conhecia alguém chamado Greg e por isso iria tranquilamente até ele, de encontro à morte. Até parece.
- Ele diz para a señorita trazer os dois.
- Tudo bem, obrigada Roger. – desligo, indo correndo até o quarto, apesar de continuar de olho nas câmeras, para não perder um só movimento de Greg.
Todas as roupas que eu possuía cabiam em uma mochila preta que eu guardo embaixo da cama. Todo o resto que eu tinha naquele apartamento não era meu, quer dizer, supostamente era; mas eu não considerava como se fosse. Como diria Scott: apenas para manter as aparências.
Mochila pronta, coloco o celular no bolso e pego a arma guardada em um fundo falso na gaveta. Nunca pensei que realmente fosse precisar dela, apesar de Scott ter me feito entrar em um treinamento para aprender a usá-la. Como eu não sabia o que iria enfrentar, achei mais seguro levar a arma comigo. Coloco-a dentro da bota preta que eu acabara de calçar e ponho a mochila nas costas.
Desligo a televisão e fecho a porta, dando uma última olhada no apartamento escuro no qual eu tinha vivido por um ano, tendo a certeza de que eu nunca o veria novamente. Depois de presenciar o “acidente” que matou meu pai dois anos atrás, eu ligara para a polícia (depois de ter certeza de que o assassino tinha ido embora) e abrira minha boca enorme para eles, contando tudo que eu sabia. O tal homem foi preso, mas é claro que ele não era o manda chuva dos bandidos, era apenas um peão. E, desde então, o big boss quer assiduamente me matar, por eu ter contado aos policiais onde as drogas chegariam, fazendo-os interceptá-las e causando assim um prejuízo relativamente grande para ele. Depois de uma falha tentativa de me matar, alguns dias depois (soltar um pitbull raivoso na minha frente não foi a ideia mais genial dele, devemos confessar. Se bem que ele jamais podia imaginar que eu por acaso estaria carregando comida na mochila, podendo facilmente distrair o bichinho e sair correndo até a polícia), fui oficialmente apresentada a um programa de proteção. Eu já tinha visto em filmes, mas
Devido ao choque e à experiência de quase morte, fui imediatamente incluída em uma terapia e passei a conversar todos os dias com uma senhora que até me ajudou bastante. No meio disso tudo, também tingiram meus lindos cabelos castanhos de loiro e mudei de estado, apesar de continuar morando no Brasil. Ganhei uma identidade completamente nova e passei a me chamar Haley, uma garota estrangeira que começara uma faculdade de Arquitetura em uma faculdade daqui, morava sozinha e era bastante popular na faculdade. Fiquei por lá durante um ano. Durante esse ano fui treinada de diversas formas e fui me acostumando à estranha Haley, que tinha se tornado parte de mim. Até Scott achar que eu estava interagindo demais e que precisava abandoná-la. Inventei uma doença na família e disse que me mudaria de volta para minha cidade natal, quando na verdade mudei de estado mais uma vez, me tornando Hannah. Ainda estava loira e cursava Arquitetura, mas dessa vez era uma nerd com a qual ninguém gostava de conversar. O que foi bom, até. Scott desta vez aconselhou-me a interagir com o menor número de pessoas possível e foi exatamente o que eu fiz. E ela, mais uma vez, se tornou parte de mim. Parte essa que eu precisarei esquecer em pouquíssimo tempo. Isto é, se eu sair viva daqui.
Respiro fundo, andando até as escadas de emergência, que se localizam atrás do elevador. Onde eu sabia ser a saída perfeita – talvez a única -, já que o elevador era de frente para a entrada do prédio, o acesso às escadas sendo invisível às pessoas presentes na portaria. Invisível, assim, ao tal Greg. Desço silenciosamente, apesar de saber que ninguém ouviria. Chego logo ao térreo, já que eu moro no terceiro andar. Abro apenas uma fresta da porta, olhando com cuidado o ambiente ao meu redor. Eu conseguia enxergar o parquinho mais adiante e ele estava vazio. Amém.
Saio de lá com cuidado, fechando a porta devagar. Olho em volta novamente, encontrando o local vazio. Sigo na ponta dos pés até a parede à minha frente e atiro o celular na cerca elétrica, só para confirmar se ela estava ligada. Como eu previ, o celular bate nela e nada acontece, a não ser o fato de ele cair para o outro lado do muro. Desligada, eu já sabia. Firmo mais a mochila em meus ombros e subo em um banco que tem em frente ao muro, apesar de um pouco distante. Eu precisaria de sorte dessa vez. Pego impulso e atiro meu corpo para frente, ficando pendurada no muro, com as mãos mantendo-me lá. Respiro fundo, contando até três, e forço os braços para cima (as horas na academia não tinham sido tão inúteis, afinal de contas), conseguindo me atirar para o outro lado e me estatelando no chão de concreto frio que cobria a calçada. Eu estou livre, finalmente. Levanto e sigo até o meio da rua, fazendo sinal para um táxi que passa do outro lado. Ele para e eu entro, entregando uma nota de cem ao taxista, que sorri satisfeito. Dou a ele o endereço do “escritório de advocacia” de Scott e em quatro minutos chegamos lá. Observo o taxi ir embora e só então pulo o portão do apartamento de dois andares, que supostamente estava fechado. Mas eu sabia muito bem que Scott vivia ali, justamente por saber que a qualquer momento um de nós poderia precisar dele. Sigo até os fundos rapidamente e pressiono minha mão sob o sensor que pendia ao lado da porta, que reconhece minhas impressões digitais e permite a minha entrada. Tateio a parede à minha esquerda até achar o tijolo solto, o pressionando para dentro. Imediatamente uma porta, antes inexistente, surge à minha direita. Entro sem bater e Scott me espera sentado em sua mesa, as mãos entrelaçadas apoiando seu queixo. Eu não deveria me surpreender, mas não consigo evitar ficar admirada por saber que ele já está me esperando.
- Você demorou. – fala simplesmente.
- Eu... Sei que não deveria ficar surpresa, mas... Como? – pergunto, curiosa, seguindo até a mesa e sentando na cadeira de frente para ele. Scott dá um riso fraco.
- Você tirou a arma do lugar. Tinha um sensor instalado naquela gaveta. Conheço você bem o suficiente para deduzir que você não a tiraria de lá a não ser em uma situação extrema. E achei que você soubesse que eu tinha acesso às câmeras do prédio. Liguei um ponto a outro, simples assim. – suspira, parecendo entediado, e encosta as costas na enorme cadeira na qual está sentado. – Eu já imaginei que isso fosse acontecer, mas não achei que fosse tão rápido. Mas... – ele hesita. – Eu gostaria de lhe fazer uma proposta antes de outra transformação.
- Proposta? – pergunto, em dúvida, sem saber se ouvi direito. Que tipo de coisa Scott teria a me propor?
- Sim. Você aceitaria trabalhar conosco? Ser uma de nossas agentes? – jogo as costas para trás, surpresa. Não estava esperando nada desse tipo. – Temos muitos agentes em Princeton, mas mesmo assim precisamos manter tudo sob controle. Às vezes alguns dos nossos agentes precisam ir atrás de uma pista, e por isso preciso de alguns que fiquem apenas lá. Não se preocupe, não é nada perigoso. Só preciso que você fique de olho em algumas pessoas e vez ou outra tire alguma foto. Pode ser?
- Pode. Aceito. – sorrio, concordando. Já que ele disse que não era perigoso, eu não tinha motivos para recusar. E seria legal fazer algo de útil, para variar.
- Ótimo. Você está preparada? – ele muda de assunto, e eu me mexo na cadeira.
- Claro. – respondo, balançando a cabeça afirmativamente. Adeus, Hannah.
Uma porta ao lado da mesa de Scott é aberta e de lá sai a sua suposta secretária (durante o dia ela ficava na recepção do suposto escritório de advocacia. Tudo para manter as aparências, sabe como é) Sydnei, que sorri para mim, apontando para dentro do minúsculo armário. Hora de mais uma mudança.
Entro e sento na única cadeira do pequeno local, logo Syd começa a mexer em meus cabelos e em poucos minutos eu estou... Ruiva. Não ficou ruim, até. Arrisco dizer que ficou melhor que o loiro de Hannah. Sydnei me dá roupas novas e em um estilo diferente às que eu estava acostumada, com lentes de contato verdes e logo eu pareço outra pessoa. Retorno ao escritório de Scott e ele colocou uma pasta amarela em cima da mesa.
Sento novamente na cadeira de antes e abro a pasta com cuidado, sem saber o que me espera lá dentro.
.
Então essa era a minha nova eu.
- ? – pergunto, confusa, olhando meu primeiro nome (aquele que eu usava antes de toda essa confusão). – Não é meio óbvio usar meu nome verdadeiro?
- O mais óbvio é geralmente o menos provável. – explica, e eu concordo brevemente.
Passo os olhos rapidamente pela página, decorando tudo de importante sobre ela. Americana, fazendo faculdade de Direito e trabalhando em um jornal da faculdade para pagar a mensalidade. Espere aí... Americana?
- Você fala inglês fluente, certo? – ouço ele me perguntar e apenas confirmo com a cabeça. – Ótimo.
Continuo lendo a minha “ficha”. Mãe holandesa, pai britânico. Casaram e mudaram para os Estados Unidos por causa do trabalho dele. Ambos morreram em um acidente de carro, anos atrás. Mora sozinha. Residência atual: New Jersey.
- Residência atual? – pergunto, encarando Scott e ele assente.
- Pronta para uma viagem de avião?
02
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