Quando entro no carro, encontro Scott e seus olhos vermelhos me encarando. Ele tenta disfarçar dizendo que está doente, mas sei que está triste. Na verdade, também estou. Desde que perdi meu pai e fiquei sozinha no mundo, Scott foi o mais próximo de uma família a que consegui chegar. Foram dois anos muito difíceis, precisei me transformar em uma pessoa totalmente diferente, além de ter que superar a dor de perder aquele que sempre cuidou de mim. Quem cumpriu esse papel desde então foi Scott, que é a pessoa na qual eu mais confio no momento. Apesar de ir à terapeuta durante certo tempo, nunca realmente me abri com ela, a única pessoa que tinha acesso aos meus medos mais profundos era ele, que sempre me acalmava e me incentivava a seguir em frente com a Haley, e depois com a Hannah. Nossa relação tinha ultrapassado a barreira “profissional” há tempos. É o único em que eu confio e minha maior preocupação no momento é como eu me virarei sem suas instruções.
Seguindo o que eu achava ser o procedimento padrão, ele me entrega a pasta com as informações de e eu rapidamente decoro detalhes relevantes, como data de nascimento, nome dos pais e coisas do gênero. Em um saquinho que Scott me entrega estão a carteira de identidade, carteira de motorista, certidão de nascimento, matrícula da faculdade e o celular que eu passaria a usar dali para frente.
- Você morará na própria faculdade – começa, assumindo a postura profissional de sempre. -, lá eles têm um conjunto de dormitórios reservados aos estudantes e como você precisa trabalhar para pagar o curso de Direito, não tem condições de alugar um apartamento como fazia no Brasil. Não se preocupe que em Princeton grande parte dos alunos ocupa os dormitórios, mais uma caloura por lá não será nada incomum. – dá de ombros, apontando o nome do dormitório onde eu ficaria. - No quarto ao lado do seu estará Cooper – dá ênfase no nome, para que eu não esqueça -, nele você pode confiar. É agente nosso e está infiltrado na faculdade há meses. Não se preocupe que ele dará um jeito de se apresentar sem levantar suspeitas. É um dos melhores. – afirma, dando uma breve pausa. Confirmo com a cabeça, e ele continua a falar. - Quanto à sua colega de quarto, no dormitório onde você ficará tinha uma garota, porém ela saiu da faculdade há pouco e cuidaremos para que você permaneça sozinha. Será avisada caso a situação mude. E você precisará ir pelo menos uma vez por semana conversar com Alaric, que tomará meu lugar. – me entrega um papel com um endereço, que deduzo ser do tal Alaric. - Ele é terapeuta e, caso algum observador pergunte, você pode dizer que ainda sofre a perda dos pais e por isso vai lá, tudo bem? O escritório dele é bastante próximo da faculdade e não será problema ir até lá. – aponta para a pasta em minhas mãos. - Dentro da pasta tem um mapa, dê uma olhada agora e memorize-o, caso sinta que é melhor. Por falar em escritório, o local onde você trabalhará meio período também é perto e acho que a carteira de motorista não será de muita utilidade para você no início. Você trabalhará como fotógrafa, mas não é nada demais. Só uma coisa da faculdade. – o carro para e Scott se inclina para dizer algo ao motorista, logo voltando a falar comigo. - Mais uma coisa: não esqueça as lentes de contato de maneira alguma. O ideal é que você permaneça com elas sempre, ok? A cada dois meses precisará trocá-las, porém seu armário possui um fundo falso no canto esquerdo com todo esse material. – se inclina, tirando uma pasta de baixo do banco. Retira de lá um papel, que contém um “mapa” do quarto, com todas as disposições dos móveis. Indica com o dedo onde está o armário, e me explica brevemente como faço para abrir o tal fundo falso. - Qualquer problema, fale com o Cooper. O telefone deve ser usado apenas para pequenos problemas, assuntos confidenciais devem ser tratados pessoalmente, já que a maioria de nós possuirá acesso completo às ligações, não somente eu. – suspira, se virando para me olhar nos olhos. - Sei que não preciso lhe avisar, mas falarei de qualquer forma. – segura minhas mãos entre as suas, abandonando a postura profissional de sempre. - Tome cuidado. Não se destaque muito no trabalho ou na faculdade e não conte a ninguém, em hipótese alguma, qual sua verdadeira história. A partir desse momento você é . Entendido?
- Perfeitamente. – concordo, dando uma última olhada nos papéis e devolvendo a pasta ao Scott, uma informação povoando meus pensamentos: Estudarei em Princeton. Absorvo a nova realidade, sem acreditar que realmente estudarei em tal universidade, porém quando torno a olhar para Scott, distraio-me da momentânea alegria. – E se, por acaso, eu quiser falar com você...
- Sinto muito. – é tudo que ele diz, e eu sinto que não o verei novamente tão cedo. Meus olhos se enchem d’água e eu sei que o homem ao meu lado está se esforçando para não fazer o mesmo. Concordo brevemente com a cabeça e o abraço forte.
- Obrigada por tudo. – sussurro contra sua camisa e ele bagunça levemente meu cabelo, soltando-me em seguida.
- Tome cuidado. – é tudo que ele diz.
Agora é por minha própria conta.
Encaro Scott novamente e ele pisca para mim. Reúno toda a minha coragem e firmo a mochila em meu ombro esquerdo, saindo do carro e pegando minha mala que já fora tirada do porta-malas pelo motorista e entro direto para o check-in. De acordo com minha passagem, sentarei na janela e minha chegada ao aeroporto JFK, em New York, está prevista para as duas da tarde. Ou seja, chegarei a Princeton mais ou menos três horas, considerando que demorarei uma hora para ir de uma cidade à outra.
Quando adentro a sala de embarque e me acomodo em frente ao portão do meu voo, já sinto a atmosfera mudar. Quase todos ao meu redor falam inglês.
Observo, encantada, a bela cidade que começa a tomar forma à medida que o trem avança. Princeton é um local adorável, arborizado e bem cuidado, de cerca de 30 000 habitantes. A Universidade de Princeton é no coração da cidade e possui mais ou menos 7 600 estudantes. A estação de trem é adjacente ao campus e eu não preciso andar muito para chegar a qualquer lugar que deseje. Pelo caminho algumas pessoas me cumprimentam, simpáticas, e uma paz me invade. Sinto que irei gostar de viver aqui. Um momentâneo nervosismo toma meu coração, e meus olhos ficam marejados enquanto olho em volta; ter que começar de novo me assusta um pouco. Estou seriamente cansada de ter que começar minha vida do zero tantas vezes. Pisco algumas vezes para afastar as lágrimas, e respiro fundo, treinando um sorriso enquanto abro a porta.
Adentro a recepção e uma simpática secretária me entrega alguns papéis, incluindo um mapa do campus e indicações sobre como chegar ao meu dormitório. Percebo um rapaz dedilhando calmamente vários cartões postais do local, encostado no balcão. Ele é extremamente bonito e usa um moletom com o nome da Universidade. Visivelmente, um aluno. Acho que gostarei cada vez mais daqui.
Ele parece ouvir meus pensamentos, já que levanta a cabeça em minha direção enquanto o observo e sorri brevemente, em seguida retornando à supostamente interessante tarefa de organizar os cartões. Dou pela presença da secretária apenas quando a mesma cutuca meu braço, pedindo atenção. Pisca para mim, como se entendesse uma mensagem secreta que nunca passei e vira-se na direção do garoto.
- Querido, você ajuda a Srta. a carregar as malas até o dormitório? – pergunta e o rapaz concorda prontamente, endireitando-se e vindo até o meu lado. Pega minha mala e indica a saída com a cabeça.
Ainda surpresa pela rápida reação dele, apenas o sigo pelos belos corredores.
- Seja bem-vinda a Princeton, . – o rapaz fala, num forte sotaque britânico que imediatamente me encanta. E é quando eu percebo que não revelei a ele meu nome.
- Como você... – começo, porém ele estende a mão para mim.
- Sou Cooper. – segura minha mão e delicadamente deposita um beijo nela. Então ele é Cooper? Meu suposto melhor amigo, vizinho de dormitório e fonte para esclarecer quaisquer dúvidas que eu possa vir a ter é ele? O tal agente de super confiança que é um dos melhores já vistos é ele? Eu saberia que seria um estudante de minha idade, mas confesso que esperava no mínimo aqueles nerds estranhos “versão Hollywood”; não o digno sucessor de Chace Crawford! Percebo que permaneci parada quando ele solta um fraco pigarro, despertando-me de meus devaneios.
Balanço a cabeça, soltando um riso fraco e continuo a acompanhá-lo.
Os edifícios antigos parecem castelos e as enormes portas fazem eu me sentir como num filme. Antes de entrarmos no quarto ele me mostra o recinto, a sala de convivência é bastante ampla e adorável, possui alguns sofás em tons escuros e poucas escrivaninhas em um canto; Está vazia por agora, mas acredito que seja bastante frequentada durante o período comum. De lá vamos à sala de jantar, que – literalmente – parece saída de Hogwarts. É uma sala larga, com mesas compridas e teto bastante alto; Luminárias antigas e algumas bandeiras com o emblema da universidade decoram o local. Ao contrário do lugar de onde acabamos de sair, a sala de jantar está relativamente povoada. Alguns alunos fazem o lanche da tarde, enquanto mergulham na leitura de algum livro. Sinto que farei o mesmo que eles muito em breve. Cooper não fala muito durante o percurso, apenas explica-me o básico sobre o funcionamento e as regras do lugar. Chegamos à porta do meu quarto e eu agradeço a ele, garantindo que o procurarei em caso de dúvidas. Compreendendo também que ele não se refere apenas à universidade.
Espero ele ir embora para girar a maçaneta e quando o faço fico apenas parada, absorvendo os detalhes. É lindo. Acredito que o excessivo espaço se deva à falta da cama extra, mas para mim está magnífico. O tal armário com fundo falso encontra-se no canto esquerdo do quarto, ao lado de uma mesa com algumas poucas gavetas. A cama está no canto oposto, bem ao lado da janela, como mostrava o mapa que vi no carro com Scott. Entro, puxo minha mala comigo e fecho a porta, indo até a cama e me atirando nela. É macia e o lençol tem cheiro de lavanda. Recordo-me de uma antiga amiga, de eras atrás, que viera estudar em Princeton (a essas horas ela já estaria formada) e contou-me que o dormitório em que estava morando parecia um hotel. Realmente, parecia um hotel. Era tudo limpo e arrumado, porém com um sutil toque de familiaridade e conforto que faziam a diferença.
Sem perceber, caio no sono e só vou acordar em torno de meia hora depois. Dou uma leve arrumada em minha bagagem, colocando o necessário no banheiro e alguma roupas no armário. Para renovar as energias, tomo um banho quente e demorado; depois dele sinto-me cheia de energia. Visto uma roupa qualquer e decido dar uma volta para espairecer a também para acostumar com o local.
Dou uma volta pela ampla biblioteca, movendo singelamente meus dedos pelos títulos; todos conhecidos e devorados por mim. Desde William Shakespeare até Tolkien, eu já lera todos. Meu olhar pairou sobre um título que me provocou um breve sorriso. O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. Um clássico maravilhoso. Parece-me que o livro foi tomado por favorito por algumas pessoas, apenas por ele ser o livro favorito de algumas personagens, como Bella Swan e Lennie Walker; Porém duvido que mais da metade delas tenham chegado a lê-lo realmente. O título chama a atenção, mas a leitura chega a ser ainda melhor. Foi uma obra que me intrigou e é, definitivamente, complexa. Algo que pode ser tomado como intenso demais para alguns. Reviro o livro entre meus dedos, inalando seu perfume. Obviamente, aquisição recente; cheira como novo. Percebo alguns olhares à minha volta por eu estar, literalmente, com as fuças no livro e devolvo-o ao lugar de origem, deixando a biblioteca surpreendentemente com as mãos abanando.
Sem muito refletir, deixo que meus pés guiem o caminho, que percorro calmamente. Sigo por um caminho de pedras rodeado por grama e poucos arbustos e chego a um local com duas quadras de tênis, uma sendo usada por dois homens irredutivelmente focados no jogo. Alguns suspiros à minha direita capturam minha atenção e noto que um grupo de garotas observa o jogo da pequena arquibancada; suspeito que elas estão ali pelos jogadores, não pelo jogo em si.
Dou um passo à frente, ficando no limite da quadra e de frente para a rede, pondo-me a observá-los. O jogador da esquerda usa uma roupa esquisita e extremamente colorida; sua face de concentração é cômica, ele cerra os lábios e arregala os olhos para manter o foco. O outro, à direita, atrai minha atenção de outra forma. Ele usa roupas casuais pretas e manuseia a raquete despreocupadamente, sem fazer quaisquer esforços para acertar a bola.
O modo de ele jogar lembra-me meu próprio. Há uns dez meses, comecei a fazer aulas de tênis para melhorar meus reflexos. Nunca entendi o motivo de ter que estar tão preparada fisicamente, já que o objetivo do programa de proteção é proteger. Scott nunca pareceu disposto a me responder, e eu também, na época, não necessitava de uma resposta; só queria me distrair. O efeito foi melhor do que o esperado, e em pouco tempo eu tinha reflexos perfeitos, além de jogar maravilhosamente bem.
Por esse motivo, não penso muito quando vejo a bola – exageradamente amarela – vindo na maior das velocidades em minha direção; apenas ergo a mão e a seguro. Ouço algumas exclamações de surpresa vindas da arquibancada, contudo eu tinha meu olhar vidrado no homem de preto que vinha em minha direção. Seus cabelos molhados estavam colocados desajeitadamente para trás e sua camisa colada no peito destacava seu abdômen definido. Suas bochechas estavam levemente coradas por culpa do esforço físico e ele possuía na boca um torto sorriso.
Quando se aproxima mais, um raio de sol invade o lugar, iluminando nossos rostos e fico paralisada. Aqueles olhos e brilhantes à luz do sol ficavam ainda mais atraentes e eu não conseguia parar de olhá-los. No momento em que ele levanta o olhar e nossas vistas se cruzam, uma corrente elétrica percorre toda a extensão do meu corpo e eu sinto dificuldades para respirar. Que merda está acontecendo?
Ele parece sofrer o mesmo efeito que eu, já que não desvia o olhar e dá um passo à frente, fazendo nossas respirações se cruzarem. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo comigo ao reagir de tal forma a um desconhecido, mas tinha algo naqueles olhos que eram como um imã e me impediam de cogitar qualquer possibilidade que não fosse fitá-los.
Escuto um assobio ao longe e o encanto se quebra; parece que o barulho despertou o rapaz, fazendo-o quebrar o contato visual e pondo um fim ao que quer que tenha acabado de acontecer.
Ele dá um breve sorriso e volta a me olhar, porém não nos olhos.
- Ei, belos reflexos. – diz, num tom brincalhão. Incapaz de encontrar minha própria voz, apenas dou de ombros e estendo a mão para entregá-lo a bola. Ele pega-a com cautela, evitando que nossas mãos se toquem e solta um riso fraco, piscando para mim e retornando ao jogo.
Permaneço por alguns segundos com os pés enraizados no chão. E, de repente, quero correr.
Chego ao quarto, ofegante e com a cabeça a mil. O que foi aquilo? Quem é aquele homem e por que meu corpo reage de tal forma a ele? Perguntas flutuam ao meu redor e eu não acho nenhuma resposta plausível a qualquer uma delas. Minha cabeça chega a doer e eu caio sentada ao lado da cama, imóvel. Só sei de uma coisa: preciso descobrir quem ele é.
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